manhã, novo dia, acordar, despedir do resto da família que entra mais cedo, arranjarmo-nos, acordar o pedro, arranjar o pedro, ele está bem disposto, tudo normal. pequeno almoço, banalidades em língua gestual, não esquecer tomar o xarope, pôr o iogurte na mochila do pedro, vestir casacos, sair. chego ao carro, crise epiléptica ainda na cadeira. apanhar o pedro, deitá-lo no banco de trás, de lado, em posição de segurança. a crise generaliza-se, duas ou três convulsões. apenas alguns segundos, parecem minutos. já acabou?, não acabou?, parece que sim. um sono terrível, mas há comunicação. diz-me que está bem, adormece. pegar no pedro ao colo, entrar em casa, deitá-lo. apanhar a cadeira que ficou ao pé do carro, telefonar para o trabalho a dizer que não posso ir, assistência à família. enviar sms para a professora do pedro, ele hoje não vai à unidade, teve uma crise. que merda!
de certa maneira, já estava à espera. ontem e anteontem teve alguns momentos "esquisitos", já conheço a história. mas também é frequente depois não acontecer nada e a vida continuar normalmente. nunca sabemos quando vai vir a próxima crise. meus amigos, no fundo é estar constantemente preparado para mais um golpe de rins, mais uma brusca alteração de planos, manter a vida permanentemente em aberto. eu sei que também é assim com toda a gente, de repente pode acontecer qualquer coisa que nos altere os planos para o dia, mas sei também que com o pedro isso acontece mais frequentemente.
custa-me vê-lo assim, completamente apagado, despachado, exausto. é como se ele não fosse ele, apenas o corpo dominado por actividade eléctrica sem nenhum sentido, toda a actividade cerebral normal fica afogada por aquela tempestade de estímulos desordenados e sem objectivo. e depois este sono que o põe knockout durante duas ou três horas, não é um sono normal, o cérebro tem que descansar depois da overdose de estímulos.
desculpem o desabafo a crú, precisava de descarregar.