sábado, fevereiro 09, 2008

responsabilidade colectiva

a foto vem do site piada.com, mas não tem piada nenhuma. pelo contrário, é triste. não sei onde foi tirada, mas parece-me que poderia ter sido em qualquer ponto do país, que nisto da falta de respeito pela diferença há uma homogeneidade muito grande em todo o território português. o tema das acessibilidades vai-se tornando um tema recorrente neste blog. qualquer pessoa mais atenta encontra no seu dia-a-dia múltiplos exemplos desta falta de respeito crónica que, infelizmente, faz parte da (falta de) cultura social do nosso povo. os carros nos passeios a impedirem a circulação de cidadãos em cadeiras de rodas ou simples carrinhos de bebés, as escadarias que dão acesso a muitas repartições públicas sem rampa ou elevador correspondente, as escolas que não estão preparadas nem se querem preparar para a circulação de alunos com mobilidade reduzida, etc, etc, etc. isto não é mais do que um reflexo do egoísmo e da falta de sentido comunitário que temos. cada vez mais cada um vive principalmente para suprir as suas necessidades e as dos seus, e não se encara o outro, aquele que conosco partilha o mesmo habitat social, como um igual. muitas vezes nem se olha para ele. da mesma maneira, as crianças que estão a crescer com deficiências não são encaradas como fazendo parte da comunidade, não se sente uma efectiva responsabilidade colectiva pela sua habilitação, pelo seu desenvolvimento, pela optimização do seu potencial. são encaradas como responsabilidade do seu agregado familiar, que será, também sob a óptica social vigente, o único responsável pelo seu bem estar e pela sua sobrevivência quando fôr adulto, principalmente se fôr um adulto com um elevado grau de dependência. preocupam-me certas tendências sociais que começam a vir ao de cima sem qualquer vergonha nem reserva, como as declarações de alguns dirigentes da confederação da indústria portuguesa que querem poder despedir trabalhadores que atravessem fases de cansaço físico ou psicológico, incluindo entre os exemplos trabalhadores que tenham problemas familiares. e ainda por cima considerarem isso como justa causa. sabendo bem o impacto que o nascimento de um filho portador de deficiência tem obrigatoriamente sobre os pais, enoja-me que haja pessoas que se sintam no direito de despedir os seus funcionários a quem isso aconteça, enoja-me esta total ausência de solidariedade social. acompanhar o crescimento de um filho "especial" exige um esforço constante, exige disponibilidade para acompanhamento a terapias, consultas médicas, actividades diversas e, em fases mais complicadas e dependendo da parsonalidade de cada um, surgem perturbações do seu rendimento no local de trabalho. talvez por isso, muitos casais optam pela cessação da actividade profissional de um dos seus elementos, normalmente a mulher. como todos os casais nesta situação, de tempos a tempos ponderamos essa hipótese, mas nunca nos pareceu que esse seja o caminho correcto. essa opção implica o sacrifício (a mãedopedro não gosta que eu use esta palavra, mas eu acho que é a mais apropriada) de um e o afastamento e sobrecarga do outro, porque prescindir de um dos ordenados do agregado não é simples e pode implicar mais trabalho (por exemplo um segundo emprego) para quem mantém a vida profissional. o equilíbrio de responsabilidades e a manutenção da vida profissional dos dois parece-me o mais lógico. parece-me também lógico que patrões e chefias têm a responsabilidade social de facilitar a vida a quem está nesta situação. parece-me também lógico que as crianças, as com deficiência e as outras, são um bem colectivo, o futuro do nosso país, da nossa sociedade, e devem ser assumidas como responsabilidade colectiva. mas pelos vistos, como se costuma dizer, a lógica é uma batata. podre.

5 comentários:

Anónimo disse...

Infelizmente acho que tem toda a razão... Mas temos que lutar por uma pequena diferença...Força! Todos juntos, pode ser que consigamos. Bem hajam para vocês!Lina

Maria disse...

Supostamente teriam responsabilidade social. Pela lógica do discurso das criaturas as pessoas são manipuláveis e recicláveis a seu gosto. Julgo tratar-se de casos graves de prepotência. Não me parece que seja mal com cura mas para cortar de raíz. Porque será que a tolerância tem que estar sempre do mesmo lado?
Abraço amigo.

Grilinha disse...

Não só deixaste-me a reflectir com este post...como estive a lê-lo para o meu marido e ainda hoje conversei com isto no meu local de trabalho. A verdade é que apesar de ter menos absentismo que outros colegas de trabalho, para qualquer patrão, ter empregados como nós não é o melhor cenário. Por vezes, o coração é grande e pensam , que nós teremos de ser os últimos , (em caso de necessidade) a sair....porque precisamos muito...
Mas quem não tem os pés assentes na terra e não sabe que o egoísmo fala mais alto...triste isso...

Um beijinho e obrigado por este post.

__Isabel__ disse...

Apoio este post embora, deixar o trabalho (o meu) acabou por ser a nossa solução, para já.
Não vai ser fácil, mas penso que todos vamos ganhar com isso.
Beijinhos a todos!

lobitas disse...

Este post poderia ter sido escrito por mim , na medida em que eu tive que deixar de trabalhar, na altura desconhecia a lei nos permite tirar quatro anos para ficar com a familia, e por incrivel que parece a minha entidade patronal de então não me assinou os papéis para ir para o fundo de desemprego, foi muito revoltante, senti-me mesmo descriminada, não conseguiram entender que eu tinha que ficar com a minha filha, para eles o facto de não me ajudarem foi como se me tentassem castigar por eu não ir trabalhar mais para eles.
Enfim o que é mais triste é que não são os unicos.
Tudo de bom para vós.