sábado, março 24, 2007

ser pai

não deixa de ser estranho que este blog não tenha tido um post do dia do pai, mas a mãedopedro não o escreveu e eu, para além de não tido tempo para o fazer, fiquei a matutar nisso de ser pai, e como ser pai, não só do pedro mas também dos irmãos do pedro, me transformou e modificou a minha vida. sempre quis ser pai. talvez por nunca ter tido uma relação muito próxima com o meu. não se pense que o meu pai foi um mau pai, ou um pai distante e ausente. nada disso. é um homem excelente, sensível, mas reservado. nunca conversámos muito, apenas o essencial. a minha mãe também foi uma mulher com uma personalidade muito forte e no meio da família, todas as relações passavam por ela e nunca deixou muito espaço para que os filhos desenvolvessem uma relação directa e independente com o pai, enquanto foi viva.
nunca encarei os meus filhos como extensões de mim próprio, antes como seres independentes e autónomos. também nunca projectei neles as minhas frustrações, os meus sonhos irrealizados. sempre encarei a tarefa de ser pai como uma tarefa de dar, de servir de suporte para a formação de um ser com vontade e vida próprias, nunca lhes construí o futuro, lhes escolhi áreas de interesse. talvez educar em liberdade seja mais difícil, por vezes deixá-los bater com a cabeça na parede, espalharem-se ao comprido no chão, aprenderem com os próprios erros.
relembro o nascimento de cada um deles como momentos de particular felicidade, e tive a sorte de poder estar lá, quando eles pela primeira vez viram a luz do mundo. assistir a um parto é sempre uma emoção. com o pedro foi um pouco diferente, embora o parto dele tenha sido fácil e calmo, desde o primeiro momento que percebi intuitivamente que algo de errado se passava. nasceu com a cara roxa, porque tinha uma circular do cordão umbilical, mas além disso tinha pequenas manchas vermelhas por todo o corpo. eram microhemorragias provocadas pelo número baixo de plaquetas no sangue. depois soubemos toda a verdade, a infecção pelo citomegalovírus, e o mundo desabou. como também trabalho na área da saúde, os pediatras acharam que eu seria a pessoa mais indicada para dar a notícia à mãedopedro. foi a tarefa mais difícil da minha vida.
ser pai não é fácil. embarcamos na aventura cheios de sonhos e boas intenções, cheios de teorias e instintos, mas cedo nos apercebemos que as coisas não são tão simples como parecem numa primeira análise. aprendemos com os nossos próprios erros também, vamos corrigindo práticas, métodos. vamos imprivisando muito também, quando nos deparamos com situações que não podemos, ou não nos passou pela cabeça, prever.
ser pai é amar incondicionalmente, é estar lá para quando for preciso, é vigiar, mas por vezes, mesmo que isso vá contra os nossos ideais, é controlar também. é proibir quando isso é necessário, mesmo que por vezes os vejamos sofrer. é também compreender que não somos a única fonte de formação e informação, e que há fases em que somos postos em questão e tudo o que dizemos tem o efeito contrário àquele que pretendemos. é reflectir, é pormo-nos a nós próprios em questão também. ser pai coloca constantemente desafios.
feitas bem as contas, ser pai do pedro não é muito diferente de ser pai dos irmãos. tem realmente um fundo de preocupação e apreensão, tem uma responsabilidade acrescida em termos de capacidade de fornecer e estimular armas de sobrevivência, mas fora isso... lembro-me que quando o pedro nasceu, vimos um documentário sobre um miúdo norteamericano com paralisia cerebral. uma situação mais grave que a do pedro, pois afectava todos os membros. no momento do documentário, esse miúdo era um jovem adulto a dar os primeiros passos de vida independente. lembro-me de vermos a mãe desse miúdo dizer que sempre o tinha tratado como aos outros, as mesmas regras e os mesmos princípios. nesse momento decidi que com o pedro também seria assim, fazia todo o sentido.
já vai longo este post, nem me passa pela cabeça esgotar o assunto aqui, mas quero acrescentar que não compreendo de forma alguma os homens que perdem esta oportunidade e se desligam dos filhos. nem aqueles que encaram os filhos como propriedade sua e lhes definem percursos profissionais, lhes impõem estilos de vida e áreas de interesse.
ser pai exige tempo e dedicação. nem sempre tenho nem tive o tempo que queria para eles. mas ser pai não significa esquecermo-nos de nós enquanto pessoas com aspirações e sonhos pessoais. talvez esta seja a parte mais difícil de dosear. implica fazer sacrifícios, implica por vezes adiar projectos pessoais ou mesmo esquecê-los, enfim, tudo o que cabe dentro da definição de amar.

4 comentários:

isabel disse...

...e aqui está tudo o que define um PAI... UM GRANDE PAI ... e não te preocupes, porque todos os dias são DIA DO PAI.
Um grande beijo para este PAI, de todos cá de casa

Grilinha disse...

Tens razão...vim cá espreitar no dia do pai com uma secreta esperança de ver um post assim...
Depois de tudo o que li, faltam-me palavras para comentar. Adorei a sensibilidade que demonstraste que bem vistas as coisas, ser pai...é parecido com ser mãe, não é? Por isso, vivi cada palavra tua. Enterneci-me... Acompanho-vos, torço por vocês, por muitas vitórias, por muitas alegrias...com todos os filhos e na vossa vida em geral. Continuem, porque chegar aqui e ler um post como este, enriquece-me como ser humano. Vou daqui cheia de amor, de ternura sobre o que li...e cheia de vontade de ser tão bela progenitora, quanto vocês...Um beijo
P.S: o DIA DOS PAIS E DAS MÃES É TODOS OS DIAS, NÃO É MESMO ?

paidopedro disse...

isabel: obrigado pelo beijinho, que é retribuido. tens razão, ser pai é tarefa para todos os dias.

grilinha: não tenho dúvidas de que vocês são uns grandes pais, basta ler o teu blog. somos o que somos, seguimos as nossas vozes interiores, o que importa é que nos guiemos pela capacidade de amar. também eu me enriqueço com os teus posts. beijos

lobitas disse...

Tão bom o teu testemunho como pai do Pedro, amar é mesmo isso é acima de tudo estarmos sempre ao lado deles a lutar contra todas as adversidades que as suas limitações podem causar, e a forma mais genuina é amar e ensinar a amar e o resto será superado com muita naturalidade.
Tudo de bom para vocês, abraços da alcateia