sábado, março 15, 2008

este país não é para deficientes

segundo post do dia. não resisto a transcrever a crónica de joão bonzinho, com o mesmo título deste post e publicada ontem no semanário sexta, distribuído com o jornal público.

tribunal de abrantes, 11 de março de 2008, sim, dois mil e oito. uma testemunha, deficiente em cadeira de rodas, chega à porta do tribunal e pára. não encontra qualquer rampa, não pode, obviamente, subir as escadas, o edifício não tem elevador, jamais conseguirá entrar na sala de audiências se não o levarem ao colo. a imagem não é de ficção mas parece de filme. a ausência de acessos para deficientes no tribunal de abrantes lembra apenas um problema que faz toda a diferença no atraso de um país que, infelizmente, está muito longe de esgotar a sua inaceitável relação com os deficientes na ridícula imagem do tribunal de abrantes.
sem qualquer base científica, atrevo-me a presumir que mais de dois terços de portugal impede os deficientes de andar, subir, descer, entrar, sair. portugal é, portanto, um país muito atrasado. não é para deficientes, também não é para velhos, como sabemos, ainda nem sequer é um país para crianças, e já nem quero referir um estudo que dá um quinto das crianças portuguesas em risco de pobreza.
em abrantes, onde o parque de estacionamento tem lugares reservados a deficientes, o ridículo não matou ninguém mas feriu ainda a dignidade da justiça. como não chovia, decidiram os juízes levar a audiência para a rua e foi na rua, à porta do tribunal, que foi ouvida a testemunha deficiente.
claro que o tribunal de abrantes é apenas um dos muitos edifícios, sobretudo edifícios do estado, nos quais não podem existir deficientes. a tal testemunha ouvida à porta do tribunal disse mesmo aos jornalistas que na sua cidade quase não consegue deslocar-se a lado algum. "a mim, sinceramente, isto só me dá vontade de rir" afirmou. valha-nos isso. rir. do país e de abrantes. enfim. tudo como dantes.

lembrei-me imediatamente do estudo da deco, publicado na última proteste, sobre 300 estações de correios. entre soleiras altas, degraus interiores e portas estreitas e pesadas, 93 apresentam obstáculos para cadeiras de rodas. apenas 11 têm plataformas elevatórias.

3 comentários:

Cristina disse...

Pois é... mas os eleitores em cadeiras de rodas não são em número suficiente para que os governantes se preocupem com eles... não vale a pena investir nos deficientes que são poucos... mais vale construir aquela tal estrada que vai dar não sei quantos milhares de votos nas legislativas e nas autárquicas...

Não é esquecimento… é falta de vontade dos governantes, embora a responsabilidade seja de todos nós individualmente, pois se eles (governantes) se apercebessem que se não tivessem em atenção os deficientes, NENHUM eleitor (deficiente ou não) votaria neles, então a atitude seria outra.

Cristina

Grilinha disse...

Grandes posts...
O debaixo´toca-me em especial
Bom dia do PAI.
Um beijinho

lobitas disse...

Em relação ao anterior, a falta de iniciativa é enorme por parte das entidades e o mais grave é que não têm sensibilidade para lidar com pessoas com necessidades especiais.
Eu por acaso vi a reportagem, é uma vergonha este pais, á umas semanas atrás foi fazer o pedido para o lugar de estacionamento em frente a casa, e sabem que foi informada que teria que pagar uma taxa de 200 euros anuais, parece anedota mas é verdade, vou fazer um post sobre o assunto.
Tudo de bom
Beijinhos da alcateia