sexta-feira, maio 18, 2007

planos, inspectores e normalidade (seja lá isso o que fôr)

perguntava-me a maria, em comentário ao post anterior, qual a capacidade de intervenção dos pais nos planos que são feitos para os seus filhos. se calhar é melhor falar aqui um pouco sobre estes documentos. enquanto o pedro frequentava a intervenção precoce na a.p.p.c., todos os anos era efectuado o p.i.a.f., plano integrado de apoio à família, onde eram traçados os objectivos para esse ano em relação ao pedro. o plano era elaborado pelos diferentes técnicos intervenientes (terapêutas, educadores, psicóloga, etc) e depois discutido em reunião com todos, incluindo os pais. nesse plano constavam as avaliações efectuadas pelos diferentes técnicos e os objectivos cognitivos, de desenvolvimento motor, de controlo de esfíncteres, and so on. na reunião eram incluídos os pais e elementos das outras instituições onde o pedro estava integrado, nomeadamente creches e jardins infantis que o pedro frequentava. não sei indicar a legislação que sustenta estes planos, mas suponho que uma busca na net produza frutos. desde que o pedro integra a unidade de apoio aos surdos, existe o p.e.i. (plano educativo individual), que é semelhante ao p.i.a.f., mas não tão abrangente, porque não inclui elementos de outras instituições. como alunos especiais que são, estes meninos não seguem os conteúdos programáticos normais do seu ciclo de estudos. mais uma vez não sei qual a legislação, essa parte sempre foi área da mãedopedro, que está dentro do sistema educativo. é elaborado um p.e.i. para cada ciclo de estudos. o pedro teve um no pré-escolar e agora foi elaborado o correspondente ao 1º ciclo. quer o p.i.a.f. quer o p.e.i., devem analisados pormenorizadamente, pois eles só têm validade depois de assinados pelos pais. neste p.e.i. do 1º ciclo, que considerámos pouco ambicioso, havia dois ou três adjectivos qualificativos dos atrasos de desenvolvimento do pedro (físico e cognitivo), com os quais não concordávamos. tivemos hoje a reunião para discutir o assunto. os adjectivos eram "grave" e "acentuado". não temos dúvidas de que o pedro tem atrasos no seu desenvolvimento, se comparado com a normalidade, mas qualificar, parece-nos abusivo. quais são as escalas? quantos graus existem? grave corresponde a quê? e acentuado? enquanto que em relação à surdez existe uma escala e quando se fala em surdez profunda toda a gente sabe o que isso quer dizer, em relação aos atrasos de desenvolvimento, não há sistematização e o "grave" para uns, pode ser "moderado" para outros, dependendo do contexto e do universo de referência. a reunião nem correu bem nem mal. conseguimos que o adjectivo "acentuado" caísse, não nos souberam explicar exactamente o que queria dizer, a que grau da "tabela" correspondia. o "grave" ficou lá, salvaguardado com uma expressão do tipo "mas com francos progressos".
depois destes anos todos com o pedro, não conseguimos olhar para ele como tendo atrasos graves ou acentuados. rejubilamos com os progressos dele e valorizamos as suas conquistas. se calhar perdemos a noção de normalidade, mas hoje constatámos que essa noção está bem presente em muitas pessoas, que olham para o nosso pedrocas através dela. ficámos a saber que recentemente esteve na unidade um grupo de senhores inspectores, que ao lerem o projecto de plano para o pedro, o consideraram muito ambicioso. esse mesmo que nós achámos pouco ambicioso. imagino que devem ter olhado para o miúdo e do alto da sua ignorância fizeram uma ideia rápida e falsa, recheada de todos os preconceitos habituais. muito ambicioso? e não temos que ser ambiciosos com estes meninos? a triste e crua verdade, é que temos que prepará-los para uma sociedade que vai sempre olhá-los através das lentes do preconceito, em comparação com um padrão de normalidade, que vai sempre olhar para as suas imperfeições. a batalha vai ser dura, não vale a pena fingir que não.

21 comentários:

GuerreiradaLuz disse...

Concordo com o que dizes. Tens toda a razão. Independentemente de tudo temos de os preparar e a nós também, para uma sociedade que pode rejeitar, olhar de lado, desconfiar e acima de tudo não acreditar. A mim parece-me que a maior parte dos PEI são copy paste um dos outros. Lembro-me que o André tinha do dele, dar um chuto numa bola, isto quando ele salta, corre, dá pontapés, marca golos. Será que estes objectivos são mesmo analisados e seguidos diariamente ou apenas se olha para eles nos fins dos periodos de avaliação? Ás vezes sinto que para haver sucesso garantido, deveriamos nós os pais ser integrados nas salas, nas terapias, para podermos "coordenar" bem todos os objectivos. Algo improvável e muito dificil acontecer. Mas é a nós que dói, somos nós que mais acreditamos, somos nós que sabemos a importância do empenho. Como fazer todas estes professores, terapeutas, etc... olhar para os nossos filhos com os nossos olhos e não como mais um....?

Anónimo disse...

É a triste realidade...é dificil mudar mentalidades...quero dizer que tenho acompanhado smepre o blog...apesar de às vezes...não comentar.

O Rodrigo está de volta à blogesfera....beijinhos
Patrícia e Rodrigo

http://rodrigomorgado.pt.vu/

lina disse...

Pai do Pedro, estou do outro lado e acredite que nos dá imenso prazer mostrar os progressos dos filhos aos pais. Estou farta de nivelar por baixo e também acho que devemos ser muito exigentes, por muito mais trabalho que isso nos dê. É uma pena que nem todos os pais estejam atentos aos PEI dos filhos. No entanto é preciso ter em atenção que quando iniciamos um trabalho com uma criança, ela não nos conhece, e muitas vezes não demonstra as suas capacidades. Pode ser necessário algum tempo para que a confiança que se estabelece dê frutos e a criança se revele em todo o seu potencial. Também me faz muita confusão expressões como "dificuldades cognitivas severas", sempre as questionei, e nunca fui esclarecida. Mas inda bem que fez este post, vou voltar à carga com os colegas do ensino especial e tentar preceber melhor as avaliações que fazem dos alunos especiais. Muito obrigado por permitir que compreenda "o outro lado". Um abraço. Lina.

Grilinha disse...

Acho que exigir aprendizagem não tem nada de ambicioso. Sempre com muito poder de observação para ter a certeza que eles não se sentem " a não cumprir expectativas".
A batalha é vossa, mas já a sinto como um pouco minha também. Algo me diz que me sentirei muitas e muitas vezes desapontada...mas oxalá que saiba conduzir os assuntos adequadamente. Percebo que estão atentos, interessados e são exigentes. E acho que deve ser mesmo assim. Com um apoio desses o nosso Pedrinho obterá o melhor para si. Quanto à inteligência, ou desenvolvimento cognitivo e por ter um primo surdo, posso dizer que observo que outros "sentidos" são desenvolvidos ao ponto de ele saber o que falavamos ou sentíamos sem sequer olhar para os nossos lábios. É um poder de observação das nossas posturas, expressões...bem, francamente nem sei. Sei que ele sabia TUDO em crainça...não lhe escapava nada. Agora adulto, como mora longe não sei como está, apenas que é autónomo e já nem mora em casa dos pais, mas imagino que continue "utilizando as suas armas secretas". Um grande beijo e muita força, sempre

paidopedro disse...

guerreira da luz: mas será que compete a nós, pais, coordenar? na prática, muitas vezes o sistema deixa essa tarefa para nós, mas eu acho que é um abuso. e as crianças que não têm pais com o nosso nível de diferenciação? porque é que é tão difícil pôr as instituições a falarem entre si? porque é que faz tanta confusão aos técnicos confrontarem saberes e aprenderem uns com os outros? às vezes parece-me que não há muita vontade de trabalhar...

paidopedro disse...

patrícia: ainda bem que estão de regresso. já actualizei o link e já fiz uma visita rápida. espero que as coisas se controlem com a nova terapêutica.

paidopedro disse...

lina: a sua perspectiva só enriquece este blog. o que eu sinto muitas vezes é que os professores que estão no terreno não têm a formação que deveriam ter. não é culpa vossa, é o sistema que o permite. este ano, uma das professoras que foi colocada na unidade, para o primeiro ciclo, não tinha qualquer formação em surdez, no início do ano não sabia nada de língua gestual, e a sua preparação de base é o curso de educadora de infância. no entanto foi colocada por concurso. não sei como é que o sistema permite isto. tem razão quando diz que muitas vezes a criança não se revela completamente no contexto escolar, por isso é tão importante o diálogo com os pais. mas muitas vezes sinto que os professores não dão a devida importância à opinião dos pais. devem achar que não temos os pés acentes na terra. de qualquer maneira, este plano foi elaborado em maio, após 8 meses de aulas.

paidopedro disse...

lina: só mais um pormenor, que dá razão à minha ideia de que não há sistematização e cada um emprega a terminologia como quer. o adjectivo "severas" corresponderá ao "acentuadas" da escola do pedro? ninguém sabe...parece-me urgente uma sistematização, para que as pessoas se possam entender.

paidopedro disse...

grilinha: bom ponto. os surdos desenvolvem realmente sensibilidades e percepções diferentes. o que me pergunto é até que ponto isso é apercebido e valorizado. o padrão continua a ser o "normal", ou seja a criança com os cinco sentidos funcionantes, e com os quatro membros, tronco e cabeça "fully functional".

Grilinha disse...

Pai e mãe do Pedro: Possivelmente não deve ser muito valorizado, mas é uma pena, porque no grande mistério da natureza humana, há muitas funcionalidades a desvendar justamente porque nos centramos demasiado no normal. Eu sei que existe quem tenha percepções ditas "extra-sensoriais", e eu própria já tive por algumas vezes...chamam-lhe também intuição, mas ocorreu de forma quase surreal. Mas sabemos muito pouco de coisas menos "racionais", menos normais. E como este tipo de sensibilidade existem outras ainda por explorar.

__Isabel__ disse...

Aos Pais do Pedro.
Gostei do post.
Obrigada, alertou-me para certos aspectos da educação dos filhos especiais.
Sinto que faz parte da luta dos pais tentar tornar normal o que aparentemente é anormal.
A sociedade em geral é assim.
Não consegue "aceitar" a diferença com tanta facilidade.
Por isso estamos cá, os pais, para apoiar os nossos filhos e ajudá-los, com a colaboração e ajuda de terceiros ( porque é bem preciso ) a atingirem alguma autonomia e um dia mais tarde, também eles contribuirem com algo de positivo para a sociedade.

Cláudia Rocha disse...

Olá

Obrigada pelo post, muitas das coisas que foram faladas, para mim foi a primeira vez que as ouvi, isto tudo porque ainda estou no princípio de uma luta que será até ao fim das nossas vidas.
Apesar de ainda não ter de lidar com esse tipo de situação, é importante sabermos quais as dificuldades que iremos sentir, para assim nos podermos preparar melhor, pelo que acho importante debater estes assuntos e dar a conhecer estas novas realidades, pelo menos para mim, que nestas andanças ainda sou uma mãe muito inexperiente.

Um grande beijinho

Cláudia, Madalena (6A) e Guilherme (13m)

paidopedro disse...

cláudia, essa é uma das funções deste blog. partilhar experiências.

lobitas disse...

E que grande partilha, para mim tambem ainda é um assunto muito recente, e vou tentar transpor as minhas duvidas para a orientadora do projectO., este post foi realmente muito importante. Quando um dia a lobita for para a escolinha, é algo que me preocupa, como saber qual o melhor sitio ?? onde estão os melhores profissionais??? Penso que é como desbravar mato, não se sabe, temos que fazer a triagem á medida que vamos avançando e eliminando os profissionais menos competentes.
Tudo de bom para vocês todos, beijinhos da alcateia

Anónimo disse...

Olá. Sou mãe e sou professora, pelo que não sei bem de que lado estou. Acho que dos dois. E por isso senti vontade de vos dizer que fazem muito bem em ter expectativas altas para o vosso Pedro. Isso é fundamental para o desenvolvimento dele. Acho que é por isso que todos os meninos vêm equipados com um pai e uma mãe. Mas, por outro, é essencial que os professores e os outros técnicos façam a avaliação deles também, para que tenham uma base a partir da qual possam trabalhar. É claro que por vezes essa avaliação é diferente da dos pais.(Eu também já passei por isso com o meu filhote e na altura pensava que ninguém poderia ter a ousadia de se atrever a dizer qualquer coisa do meu filho que não fosse o melhor, aquilo que eu precisava de ouvir, para ter forças para seguir em frente.) É importante que ela exista porque tem a objectividade que a dos pais não consegue. (Eu, depois de muitos anos, consigo ver isso, mas na altura, era-me impossível!)Os professores e os técnicos têm outros meninos com que comparar e os pais só têm aquele que é único, é especial, que nos dá muito trabalho e que muitas vezes nos faz desesperar e que ás vezes até nos faz fazer coisas que não devíamos... mas nós podemos... porque somos pais. Os professores não têm esse direito. Se eles o fizessem, nós faríamos tudo para defender o nosso rebento. Mas será que é mesmo assim? Será assim tão mau um técnico dizer que o nosso menino, que começou a andar aos 7 anos, tem um atraso grave ou acentuado? Será que nós não temos a consciência plena de que isso é verdade, mas que isso nos dói profundamente e por isso não o queremos ouvir? Mas será que nós, nas nossas profissões não somos objectivos e não consideramos isso fundamental? Passados estes anos todos, eu penso que é mesmo necessário este equilíbrio. Dói-nos como o raio, mas é preciso. E não é destrutivo, é realista. E não é por se partir dessa base que os profissionas vão deixar de trabalhar com os meninos. É precisamente por partirem dessa base que eles vão dar ao menino aquilo que ele precisa e não o mesmo que se dá à turma toda, porque aquele menino tem um problema acentuado para o qual é preciso dar uma resposta. De hoje em dia, posso garantir-vos que só está na Educação Especial quem gosta realmente do que faz e quem quer ajudar os alunos. Os bons horários e as regalias que existiam há anos já eram. Os professores que punham à frente o reformar-se cedo, por exemplo, já foram este ano para o ensino regular. Acreditem nas pessoas que acompanham o vosso filho. Eu, passado o embate que vocês estão a sentir agora, também acreditei.E não me arrependi nunca. Os pais têm um papel muito difícil pela frente, mas os professores e técnicos também precisam que acreditemos neles. Pelo bem do nosso filho.Coragem para continuarem o vosso trilho.
Zita

Maria disse...

Ai, as escalas e as escolas... Pois, pois. E as percentagens, a quantidade de vezes que são os próprios a perguntar-me que raio é ter 5% de visão quando se não vê? Será que os médicos, terapeutas, legisladores da vida de outrém, se esquecem de olhar para as pessoas ou simplesmente não se sabem colocar no lugar do outro, aquela operação básica em relações interpessoais? Boa informação recolhida, obrigado.

confissões disse...

Temos de acreditar nos profissionais.. e principalmente em nós próprios!

confissoesdeumasurda.blogs.sapo.pt

Anónimo disse...

Zita: Também sou mãe e profª. mãe, entenda-se, de um cidadão muito especial e excepcional, entende-me?

1. Um menino que apenas adquiriu a marcha aos 7 anos, por razões lesionais que lhe afectaram o sistema motor, e não o conseguiu antes. Por tal, os adjectivos qualificaticos não lhe interessam a ele criança nem às estratégias pedagógicas a levar a cabo em função das suas necessidades. Para mim mãe e profª., a expressão: "um atraso grave e acentuado", deve ser banida. Todavia para ser menos radical, deve ser ´reciclada`, na família de "reciclagem ecológica", para evitar interpretações deturpadas.

2. Não! Não é verdade que quem está no ensino especial, é porque gosta do que faz, e quer ajudar os alunos... não é verdade!. Apenas alguns/as, Professores/as desenvolvem a sua actividade com Amor, Empenho, Saber e altruismo. Existem de facto alguns, mas não são Todos. Aprendi sobretudo, e do mais negativo , quando ouvia, apenas enquanto profª, desconhecendo o contexto de que era Mãe. Grande Aprendizagem!

Claro que nós Pais acreditamos... mal fora, mas também vemos "claramente visto..." (camões)e desejamos contexto luminoso e humanizado e evolução de pensmento,ideias e práticas, positivos, nos ´ambientes em que se movem os nossos filhos com deficiência(s).Por isso mesmo `dispensamos determinadas Palavras (adjectivos), porque as palavras são portadoras de vida e/ou de morte.
Tenho dito.

anónima, anónima mesmo, a bem das crianças e adultos portadores de "handicap"

mãedopedro disse...

Querida anónima, o quanto eu estou de acordo contigo. Um beijo

Anónimo disse...

Obrigada!
Um beijo também para Ti, Mãe! e um beijão para o Pedro. Estou sempre muito próxima das crianças e dos jovens...
(mantenho dúvidas acerca da veracidade total do ´comment`que comentei. mas no ciberespaço é assim, e porque imaterial, ou seja virtual, não lesiona qualquer uma das partes.
anónima.
(prefiro assim.um falso nome, ou um nome camuflado ou alterado é a mesma coisa... o que importa são as boas intenções).

Cláudia disse...

Paidopedro,
Achei muio importante o que tu disseste, principalmente sobre os parâmetros utilizados.Tenho que levar um relatório da escola de minha filha para a pedagoga do centro de refeência, mas me questionei, qual o critério da avaliação e se pode ser usado para ela,tão especil... Concordo quando anônimo disse que dói ouvir a realidade, dói muito mesmo, mas sigo em frente e fico feliz quando encontro este tipo de consolo, de quem passa pelo mesmo e tem a ternura de ver nestas crianças não só uma deficiência, ainda que a distância,(pois escrevo do Brasil) e ainda que virtual!
Obrigada!
Cláudi